Analfabetismo político pt. 2
Bom, ocorreu o 1º turno das eleições e não é segredo que há uma ressaca para todos aqueles que votaram no Lula e em outros candidatos progressistas.
Quando alguém tem uma ressaca, não quer dizer que vai parar de beber. Ela para, pensa e parte para o próximo drink... Com certeza não é a melhor analogia, mas o choque de ontem não quer dizer que devemos desistir e que uma possível derrota no 2º turno também não quer dizer que devemos desistir de vez.
Alguns acontecimentos do meu dia acabaram por me trazer um otimismo que eu não esperava.
Primeiro, consegui relacionar os fatos de ontem com as minhas aulas sobre Ditadura Militar (9º Ano), Redemocratização (2º EM) e Golpe de 1964 e Guerra Fria (3º EM). Além de ter explicado os fatos e processos históricos (como esperado), apresentei para turmas como a luta pela democracia no Brasil sempre foi algo árduo, sabotado pelas elites e ameaçado por interesses estrangeiros – nesse último ponto, utilizei o texto do Chomsky “American Foreign Policy” de 1985 para explicar as sucessivas intervenções dos EUA para atender seus interesses e pasmem, o texto é extremamente atual. Nos anos 1980 havia uma grande apreensão sobre o futuro do Brasil. Anistia de 1979, a eleição de indireta de Tancredo e a subsequente posse de Sarney, os anseios democráticos diante da permanência dos antigos partidários da ditadura no cenário político e, mesmo assim, a Constituição de 1988 foi promulgada (38 anos atrás) em sua glória. Pela primeira vez no Brasil, a democracia era norma, os direitos individuais e coletivo eram norma, a cidadania era norma.
Isso não quer dizer que de lá para cá foi um mar de flores, mas aos trancos e barrancos, nós avançamos. E essa mensagem eu consegui transmitir aos meus alunos.
Segundo, tive uma excelente conversa com os estagiários da escola hoje. Eles são mais jovens do que eu, ingressaram recentemente no ensino universitário e fico lisonjeado que eles buscam entender mais sobre questões políticas atuais comigo e outro professores. Em suma, falei para eles que independente do resultado do 2º turno, temos que entender que a luta não acaba. A eleição de um Congresso (ultra)conservador, nos âmbitos federal e estaduais, não quer dizer que perdemos. Comentei que durante a minha formação acadêmica, ao ler Roger Chartier, Hobsbawm, Stuart Hall, Gramsci, Foucault (my beloved) e tantos outros, a única coisa que ninguém tira de nós é o nosso conhecimento. O simples fato de pensarmos diferente já é uma oposição e uma resistência. Compartilhar as nossas ideias absurdas de democracia e direitos humanos em conversas do dia a dia é uma resistência e posicionamento político em si. O cotidiano faz o momento. A vida ordinária faz o extraordinário. Resistimos e buscamos o progresso na medida do possível nessa realidade Neoliberal. Não importa a proporção.
Apesar do otimismo, uma dose de realidade sempre é boa. O cenário atual não é favorável. A meu ver, vantagem de Flávio Bolsonaro evidencia o seguinte o fato: estes eleitores têm ódio e nojo de si mesmos. Eles não se enxergam enquanto povo, enquanto trabalhadores, enquanto cidadãos, enquanto indivíduos de um coletivo. Agora, o debate reside sobre a origem desse desprezo autoinfligido.
Para encurtar esse artigo, aponto que esse desprezo é um conjunto de fatores (como sempre, que surpresa!), mas principalmente, por esses eleitores não terem empatia. Eles se tornaram tão individualistas, que qualquer projeto de construção de nação e de Estado é, supostamente, um perigo a sua posição social. Eles se sujeitam a votar em um candidato que, comprovadamente, é corrupto, imoral, antiético e autoritário. E essa sujeição ocorre porque eles preferem isso (conscientemente) invés de um projeto que “ameaçaria” os seus (pequenos) privilégios, se é que existem.
Enfim, por hoje é isso. Espero que tenham gostado.