Analfabetismo político
Já fazia algum tempo que queria escrever sobre esse assunto, e com a aproximação das eleições e das minhas recentes aulas, creio que finalmente chegou o momento de escrever sobre o analfabetismo político.
Antes de me debruçar nas minucias deste fenômeno político, gostaria de compartilhar a minha experiência em minhas aulas para o 9º Ano do Fund. II e com o 3º Ano do Ensino Médio. Ao longo desse segundo semestre, o conteúdo de história de ambos os anos coincidiu com os temas de República Liberal/Populista e Ditadura Militar no Brasil e, no decorrer das aulas, percebi que os meus alunos, sejam aqueles que estão no auge da puberdade e se sentindo “verdadeiros adolescentes” ou os vestibulandos que já estão em crise sobre a vida adulta depois da escola, não compreendiam os conceitos mais determinantes da política contemporânea: “Esquerda, Direita e Centro”.
Logo me dispôs a dedicar algumas aulas para destrinchar esses conceitos e chegar numa conclusão para que eles possam decidir por conta qual lado do espectro está de acordo com as suas convicções. Nos momentos iniciais pedi para que colocassem na lousa o que eles achavam o que era de cada lado, sem julgamentos, podendo ser ideias, políticos, partidos etc. (ex: Esquerda – social, igualdade; Centro – Getúlio Vargas, equilíbrio; Direita – PL, conservadorismo) e partir disso, fomos explicando cada ponto: O que é conservadorismo? Por que a Esquerda prioriza a igualdade? Vargas era realmente de Centro? E ao longo da nossa conversa, fomos definindo esses conceitos que, muitas vezes, são deixados de lado no debate político.
Para não tomar muito tempo do leitor – e acho que vai ser um artigo longo – ao final apresentei uma explicação, a partir da minha leitura do Norberto Bobbio (Direita e Esquerda), sobre cada lado do espectro. A esquerda prioriza a busca pela igualdade, focando no coletivo e social, enquanto a direita entende que as desigualdades existentes no mundo são “naturais”, focando em questões econômicas, individuas e de conservar as estruturas existentes e o centro, que tenta equilibrar as duas concepções, mas em algum momento, terá que escolher um lado.
Depois dessa aula, notei um comentário recorrente na maioria dos alunos: ‘obviamente que a esquerda é melhor, como que alguém pode defender a desigualdade?”, “não tem como ser de direita, a esquerda e o centro fazem sentido, mas a direita não” e por aí vai... E isso, como tantas outras coisas, ficou na minha cabeça. Não quero ser unilateral e afirmar que a Esquerda é o “lado certo” ou que não se pode ser de Direita ou de Centro, mas é inconcebível para a minha sapiência como tantas pessoas se iludem (ou não) com a Extrema Direita. Nesse ponto que entra o “analfabetismo político”.
Como é perceptível, não quero teorizar, mas expor a minha indignação. Como Historiador e Professor, me estresso com as inúmeras contradições da vida humana. Independente do progresso da humanidade, da facilidade do acesso à informação, da conectividade, do cosmopolitismo, a existência de indivíduos que se opõem aos princípios universais da humanidade – muitos deles definidos desde os tempos do Iluminismo. Estou ciente que esse posicionamento político decorre de infinitas razões: acesso a educação, renda, geografia, acessibilidade, saúde, identitarismo político etc. Mesmo assim, como indivíduos dotados de boas condições se recusam a ter empatia? Ou se recusam a compreender que educação pública é positivo? Ou como 45% do eleitorado achando que o Flávio Bolsonaro é uma opção adequada para presidência? Ou que a corrupção do Banco Master envolve mais a esquerda do que a direita?
A meu ver, a ideia dessas pessoas serem analfabetas politicamente, além de outras questões, explica esses nuances, mas reforço a minha indignação. É um dever ético e moral ser racional. Há certos posicionamentos que são universais (muitos dos quais surgiram da Esquerda ¯_(ツ)_/¯) e devem ser entendidos como e, se preciso, forçados. Diante da História, é inaceitável a ignorância daqueles que possuem os meios de não serem.
Novamente mais um grande malabarismo de ideias, mas que nos tempos atuais, precisam ser expostas.
Enfim, por hoje é isso. Espero que tenham gostado.